Debora Gimenes

Os Mensageiros

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Débora Gimenes / Debby Lenon

Região Point Pleasant, 10 de Outubro de 1774.

As batalhas eram injustas e cruéis. Crianças e mulheres das tribos indígenas eram cruelmente massacradas pelo homem branco. Os índios revidavam, mas com o tempo em menor número e cansados de tanta violência decidiram fazer um acordo com o exército americano. Os guerreiros Shawnees mandaram um mensageiro até o capitão do exército inimigo e a tribo aguardava o para assinar o tratado de paz e assim continuar a viver na região. Infelizmente a ganância do homem branco falou mais alta. Aliados ao governo britânico massacraram os guerreiros. Ferido e agonizando o chefe indígena Cornstalk, amaldiçoou aquelas terras por duzentos anos:

– Essa cidade padecerá e não prosperará por duzentos anos. Muito sangue branco será derramado nessas terras, seus habitantes sofrerão por culpa da ganância de seus antepassados. Os espíritos do meu povo vingarão nossa morte.

O chefe Shawnee pode ver o capitão rindo antes mesmo de fechar definitivamente seus olhos.

***

Ponte Silver, sobre o Rio Ohio. 15 de Setembro de 1967

Muitas pessoas que estavam sobre na ponte puderam ver a criatura alada parada sobre um dos mastros. Aquele monstro já tinha sido visto pela cidade de Point Pleasant inúmeras vezes. Sua presença só deixou de ser notada quando um grande barulho de cabos partindo e ferro se retorcendo foi ouvido.

Segundos mais tarde dezenas de pessoas estavam na água. Suas mortes foram rápidas, a temperatura da água era extremamente fria. Quarenta e seis pessoas morreram, nove ficaram feridas.

***

Los Angeles, 20 de Novembro de 2011.

Era outono. As folhas das árvores caiam uma por uma deixando a rua coberta por uma cor marrom amarelado. Linda Coffey caminhava tranqüilamente pelas ruas de Chicago. Procurava um local aconchegante para entrar e tomar um bom café. A vida nos Estados Unidos estava apenas começando. Mesmo sendo inglesa era difícil recomeçar, mas ela tinha que tentar. Esquecer as lembranças ruins da infância e do casamento mal feito.

Linda estava com trinta anos. Professora, recém divorciada, não tinha filhos, sua pele era clara, não aparentava a idade que tinha. Estava um pouco acima do peso, porém, mesmo assim, chamava muita atenção. Vestia-se sempre com roupas comportadas, andava ereta e os cabelos curtos deixavam o rosto em destaque. Era muito bonita.

Entrou no Café Bulls. Sentou numa mesa de canto próxima as janelas e pediu um café duplo e uns cookies para acompanhar. Enquanto esperava o pedido olhava distraída para a rua. Percebeu uma sombra na calçada. Parecia um grande pássaro que sobrevoava o prédio. A criatura alada de aproximadamente três metros de altura, com a envergadura da asa entre quatro e cinco metros e uns cem quilos, soltou um grito agudo. Linda sentiu-se enjoada e tonta, ajoelhou-se e em seguida desmaiou.

Abriu os olhos. Estava na enfermaria do hospital central, sentou-se e uma enfermeira veio vê-la.

– Senhora Coffey? Como se sente? – perguntou para a paciente.

– Onde estou? O que houve? – Linda estava muito confusa.

Um médico entrou no quarto e adiantou-se em explicar o que estava ocorrendo.

– A senhora desmaiou. Seus exames de sangue indicaram uma queda no açúcar, a senhora tem se alimentado bem?

– Sim… Foi o barulho daquela criatura que me deixou zonza! – Exclamou Linda, lembrando-se do que vira.

– Criatura? Não sei do que está falando Senhora Coffey! – O médico a encarou.

– Antes da náusea e da tontura… Eu vi uma criatura com mais ou menos três metros de altura. Estava sobrevoando calmamente aquele local.

– Provavelmente foi um pássaro e o mal estar deve ter causado uma impressão errônea dele. Isso pode ocorrer. Acho melhor descansar. Daqui algumas horas volto para lhe dar alta.

Linda não discutiu com o médico. No fundo sabia que era inútil. Lembrou-se da infância, quando falava para os pais que podia ouvir vozes de pessoas mortas, que via a avó. Isso resultou numa internação. Acreditavam que ela estava louca ou possuída, só saiu do hospital na adolescência. Logo lhe arranjaram um pretendente, os pais não queriam ser responsáveis caso ela viesse a ter novos delírios. Horas mais tarde recebeu alta. Disseram que algumas coisas dela haviam ficado no café. Pegou um táxi até o local.

O café estava fechado, ela viu um mendigo sentado ao lado de um latão de lixo. Estava muito triste e lágrimas escorriam de seu rosto. Caminhou apressadamente até ele e lhe estendeu uma nota de cinco dólares.

– Algo de horrível está por acontecer. – Disse o mendigo olhando fixamente para Linda.

– Do que está falando, senhor? – perguntou curiosa.

­– Estou falando do Homem Mariposa. Aquele ser alado que você viu mais cedo. Quando ele se mostra é para trazer sinal de maus presságios. Ele é um mensageiro da desgraça moça, algo terrível irá acontecer.

Linda sentiu-se fraca novamente e voltou para o carro. Meia hora depois estava em casa.

Não dormiu direito. Teve sonhos agitados aquela noite. Sonhou com um homem passaro sobrevoando o oceano Atlântico e uma onda enorme invadindo as praias. Acordou tremendo e molhada de suor. Levantou, tomou um banho e resolveu ficar vendo televisão até pegar no sono novamente. Aquele mendigo também vira a criatura.

– O que eu vi era real! – Pensou.

O dia amanheceu. Ela estava arrumada e pronta para voltar ao café. Além de suas coisas, ela queria informações sobre o que de fato estava acontecendo. Queria saber se mais alguém tinha visto a criatura. Levou pouco menos de meia hora para chegar ao comercio. Ele estava aberto. Entrou. Sentou-se na mesma mesa do dia anterior e reconheceu a garçonete que a atendeu. A moça veio falar com ela:

– Bom dia! O que vai querer? – perguntou a moça com um bloco de papel em uma das mãos e uma caneta na outra.

– Bom dia! Lembra-se de mim? – perguntou olhando o crachá da atendente. Seu nome era Maggie

– Oh Meu Deus! Claro que sim. – respondeu a garçonete – É a moça que desmaiou ontem. Está melhor? Você veio buscar suas coisas não é? Eu guardei para você vou pegar.

– Obrigada! – Linda observou um homem no balcão. Ele pagava uma bebida vermelha e quente para o mesmo mendigo que ela dera dinheiro na ultima noite. Ela caminhou até eles.

O mendigo pegou o copo e saiu correndo assim que a viu caminhando em sua direção.

– Espere! – pediu ela sem sucesso.

– Não adianta, moça. Ele tem medo de mulheres bonitas. – Disse o homem tomando o seu chá!

– Desculpe! Eu não queria… – disse sem graça. – Nos conhecemos? – perguntou ela não gostando muito da liberdade que o homem tinha ao lhe falar.

– Não! Sou Peter Macoy! Se não me engano você é a moça que desmaiou ontem com o grito da coisa.

– Como assim grito da coisa? – Linda tinha cada vez mais certeza de que não tivera uma alucinação.

­– Eles não acreditaram em você?

– Não. E não quis insistir.

– Bom. Ontem você, eu, a Maggie aqui do café e nosso querido mendigo tivemos a honra de ver um Homem Mariposa.

– Um o que? – Linda estava cada vez mais confusa com o que o homem dizia.

– Um Homem Mariposa. – Reforçou Maggie – É um ser que aparece antes de acontecimentos trágicos, na sua maioria fatais. Terremotos, enchentes, incêndios, desastres aéreos.  – Maggie estendeu uma sacola para linda – Tome! Aqui estão suas coisas!

Linda segurou a sacola e ficou pensativa por alguns minutos. Sua tontura voltou. Peter a amparou.

– Melhor sentarmos numa mesa. Maggie você pode trazer um café para ela? – Pediu Peter.

– Oh! Eu nem me apresentei. Que falta de educação, a minha. Sou Linda Coffey. Alguém mais viu a criatura, senhor Macoy?

– Pode me chamar de Peter. Não sei, acho que só nos quatro mesmo.

– Essa coisa já foi avistada antes?

– Sim em vários locais. Aqui mesmo em Chicago em 1951. Quando houve o único terremoto da cidade.

– O senhor parece saber bastante sobre o assunto.

– E eu sei! Maggie e eu somos pesquisadores nas horas vagas. E investigamos coisas inexplicáveis. Acreditamos que se vimos essa coisa ontem, algo ruim irá acontecer.

­– Como aconteceu na minha cidade natal, Point Pleasant! – Maggie chegava com uma bandeja. Trazia Café e chá para o casal.  – Em 1967 uma ponte caiu matando dezenas de pessoas. Essa criatura foi vista centenas de vezes um ano antes de ocorrer o acidente.

A garçonete escreveu um endereço em um papel e deu para Linda.

– Vamos nos encontrar na biblioteca mais tarde. Gostaríamos que você viesse junto.

– Creio que irá gostar do assunto. – Disse Peter, levantando-se e partindo sem despedir-se de ninguém.

Linda chegou mais cedo do que combinado pelo bilhete. Estava curiosa sobre o Homem Mariposa e resolveu pesquisar por conta própria, sentou-se num terminal de Internet e digitou no campo busca o termo Homem Mariposa, milhares de links apareceram, ela restringiu a busca para aparições do Homem Mariposa e diminuiu para algumas centenas. Clicou no primeiro link. A pagina de um site pessoal abriu:

A lenda do Homem Mariposa.

Essa criatura sobrenatural apareceu em Charleston e Point Pleasant entre novembro de 1966 e dezembro de 1967. As pessoas que acreditam nessa criatura associam a sua aparição com desastres que estão para acontecer. O Mothman é um criptóide ainda estudado pela Criptozoologia.

Após os seus vários aparecimentos, em 15 de Setembro de 1967 a ponte Silver localizada entre os rios Ohio e Kanwha desabou matando 46 pessoas e ferindo nove. A criatura também foi vista durante os ataques a Word Trade Center em 11/09/2001.

Entre um link e outro a moça ficou sabendo de vários casos que a fera alada havia aparecido. Entre esses casos estavam: China em 1946, onde um óvni com a descrição de uma borboleta gigante foi visto momentos antes do rompimento de uma barragem que matou quinze mil pessoas. Na Alemanha em 1978, com um acidente em uma mina. O sumiço de um avião em 1978 nas Bermudas, um terremoto no México em 1985 e o acidente radioativo em Chernobil em 1986.

– Estou vendo que você se interessou pelo assunto! – Disse Peter.

Linda pulou com o susto que levou, virou-se e viu que Maggie também estava presente.

– Não ouvi vocês chegando.

Eles olharam a pagina que a moça estava conectada. Era um vídeo, um depoimento de uma médium.

– Sra. Cass. – Apontou Maggie para a tela – Ela se comunicava com os mortos. Faleceu há dois anos. Era vizinha de minha mãe.

– Você conhece essas pessoas? – Linda estava começando a ligar os fatos.

– Meu pai e meu irmão mais velho morreram na queda da ponte. O corpo da mãe de Peter nunca foi localizado. Há anos investigamos essa criatura. Preciso saber se foi ela que causou os acidentes.

– Eu penso diferente Linda. – interrompeu Peter – Acredito que o Homem Mariposa é um mensageiro. Ele tenta nos avisar de possíveis desastres para que possamos salvar nossas vidas.

– Um Banshee? – perguntou Linda.

– Mais ou menos. – respondeu ele.

– Seja lá o que essa criatura seja, estou voltando para Point Pleasant esse fim de semana para investigar melhor. Peter também irá. Linda você gostaria de vir conosco? – propôs Maggie.

– Eu?

– Linda nos relatos das aparições as pessoas sentiram-se mal, porém nenhuma continuo com os sintomas como você. A não ser a senhora Cass. Eu sei que você pode se comunicar com os mortos – disse Maggie tentando convencê-la a ir junto.

– Vocês estão loucos. Só podem.

– Linda, pense bem. Eu tomei a liberdade de investigar você, sei que está divorciada, sei que esta tentando recomeçar aqui nos Estados Unidos porque não recebeu nem o apoio dos seus pais. Também sei que foi internada quando era muito nova, pois ouvia vozes que nenhuma outra pessoa ouvia.

– Como ousa investigar minha vida? Quem vocês pensam que são? – A mulher irritou-se com os dois. Pegou sua bolsa e passou entre eles nervosa. O casal seguiu até a rua.

Peter a segurou pelo braço puxando para si. Ela olhou seu rosto e teve uma impressão de dejavu, ela já tinha visto ele em algum lugar antes do café. Seu rosto era muito familiar, mas não conseguia se lembrar de onde.

– Linda, preciso de sua ajuda! – Disse ele numa voz calma, mas suplicante.

– O que eu tenho de especial que possa ser útil a sua investigação? – perguntou ela.

– Acredito que você seja uma sensitiva. Acho que você poderá se comunicar com a criatura.

– Mesmo que eu seja uma sensitiva, nunca trabalhei com isso. Olha, deixe-me pensar, está bem? Isso tudo é uma loucura… Vocês ainda não me disseram como conseguiram informações ao meu respeito.

– O mendigo mexeu nas suas coisas antes de nos entregar. Ele é uma vitima da criatura, enlouqueceu e vaga pelas ruas. Foi um dos poucos que viram ela durante os ataques do World Trade Center. Ele achou os documentos da clinica na sua pasta. – confessou Maggie.

– Vou embora eu entro em contato com vocês. – despediu-se e atravessou a rua.

No caminho ela começou a pensar em várias coisas de sua vida. A internação por conta das vozes que só ela ouvia. As aparições da avó falecida na clínica aconselhando que ela confirmasse aos médicos que não ouvia mais nada. Durante o casamento enquanto apanhava do marido a avó lhe dava o conforto negado pelos pais. Ninguém nunca acreditou nela, agora dois estranhos não só acreditavam no seu dom como também pediam sua ajuda.

Chegou no edifício em que morava, colocou a chave para abrir a porta da entrada principal e percebeu uma sombra por trás dela, olhou e viu um animal com asas a uma distância de quatro metros. Suas asas abertas deviam ter uns três metros de comprimento, a altura do animal era de dois metros, seu corpo era coberto por um pelo fino seus olhos eram grandes, redondos e vermelhos, a cabeça arredondada lembrava a de uma coruja.

Sentiu-se apavorada.

De repetente a criatura deu um pulo levantando vôo e desapareceu em segundos, era um animal muito veloz. Ela entrou depressa para o prédio e depois para seu apartamento. Era real. Aquele ser alado era real.

Peter desceu do carro primeiro. O chefe de policia Sergey era um amigo de infância. Cresceram juntos no orfanato da cidade, muitas crianças perderam seus pais com os acidentes que ocorreram na cidade.

Maggie aproximou-se de Sergey e deu um afetuoso abraço. Linda estava deslocada, mas Peter a apresentou para o amigo. Em seguida o grupo entrou no restaurante da praça, onde uma estatua em homenagem a criatura havia sido construída.

– Vocês cultuam essa coisa? – Perguntou Linda ao chefe de policia.

– A lenda do Homem Mariposa e a maldição de Cornstalk nos trouxe bastantes turistas senhora Coffey. – Respondeu ele.

– Maldição?

– Em 1774 uma tribo Shawnee foi traída e massacrada pelo exercito americano. – Começou a explicar Maggie – O chefe da tribo, o índio Cornstalk jogou uma maldição sobre a cidade que duraria duzentos anos. A maioria dos habitantes acredita que o Homem Mariposa está ligado a essa maldição.

– Xerife! Onde a criatura costuma aparecer?

– No terreno da fabrica da TNT. O lugar foi desativado logo após o fim da segunda guerra, mas há dois iglus do governo ainda lá.

– Você pode nos levar até lá? – perguntou Linda.

– Ninguém vai até aquele local. – disse Peter assustado – É terra amaldiçoada! O governo americano profanou um cemitério indígena ao construir a fábrica ali.

– Peter, não sei porque, mas preciso ir até lá. Sinto uma energia muito forte me chamando até o local.

– Ele quer entrar em contato com você. A criatura deve estar te chamando! – Maggie parecia eufórica e entusiasmada.

­– Maggie! – chamou a atenção Peter – Não podemos ir lá!

– Peter, vocês querem ou não saber o que está acontecendo aqui? – Pressionou Linda.

– Eu quero descobrir o que é aquela coisa. E se ela foi culpada pelas mortes da ponte.

– Então vamos até lá! – Maggie era decidida.

Eles descansaram até o começo da noite. Depois de jantarem um bom hambúrguer e batatas, pegaram a caminhonete do xerife e seguiram para a fabrica de explosivos. Linda estava concentrada. Maggie e Peter estavam nervosos. Não demoraram muito para chegar ao local e logo encontraram um Iglu.

– O que é isso? Perguntou Maggie.

– Um Iglu do governo, apenas dois restaram aqui. Esse é o de numero dezenove! – explicou Peter. – Eles usavam esses locais para armazenar os explosivos.

– Eu sinto uma presença aqui. Não é humana, mas não me causa pavor. É uma energia muito forte. – Linda ficou tonta.

– Linda você está bem? – Peter estava preocupado com a moça. – Melhor irmos embora.

– Não. Estou bem. Sempre fico tonta quando estou próxima a espíritos ou seres sobrenaturais. Eu só preciso controlar o que estou sentindo.

– O detector de EMF, está quebrado! – exclamou Maggie!

– O gravador de voz ainda funciona, assim como câmera de vídeo!

– Ele foi embora! Seja lá o que estava aqui se foi! – Comunicou Linda. – Quero voltar amanhã. Vamos embora agora.

Linda dormiu profundamente aquela noite. Acordou por volta das dez horas da manhã. Estava com fome e desceu até a recepção da pousada.

– Bom dia! – cumprimentou a recepcionista – Você sabe se meus amigos já acordaram?

– Bom dia senhora Coffey! Eles saíram já tem umas duas horas. Deixaram esse bilhete. – informou a recepcionista entregando um papel para Linda.

– Obrigada!

O bilhete estava pedindo para que ela os encontrasse na delegacia. Eles iam analisar o vídeo e o gravador numa sala cedida pelo xerife!

Antes de seguir para o ponto de encontro, passou numa lanchonete e tomou um bom café. Enquanto comia, observava o local que a ponte havia caído. Imaginou o sofrimento e o medo das pessoas que estavam lá. De repente ela percebeu que algo estava sobrevoando a ponte. Era muito grande para ser um pássaro. Era a criatura.

Quando Linda entrou na delegacia estava mais branca que de costume. Perguntou para um policial onde seus amigos estavam e ele indicou uma porta ao fundo de um corredor.

– Linda! Dormiu bem? – Perguntou Maggie!

– Eu acabei de ver a criatura! Estava sobrevoando o local do acidente.

– Como?

– Ela quer me mostrar alguma coisa Maggie! Você tinha razão, ela quer se comunicar comigo. Precisamos ir até lá hoje à noite.

– Linda os espíritos daquelas pessoas devem estar ali ainda. Você não vai conseguir controlar tanta dor e sofrimento. Pode haver espíritos ruins ali. – preocupou-se Peter.

– Eu preciso Peter, eu preciso!

Passaram a tarde sem dizer uma única palavra. Linda rezando em seu quarto, pedindo proteção para seu anjo da guarda. Maggie analisando novamente as fitas de áudio e vídeo. Peter saiu para comprar baterias novas para o detector de EMF.

Assim que escureceu, foram para a ponte.

–­ Foi bem aqui que aconteceu – Começou Linda ao chegar ao local que a criatura estava sobrevoando horas antes.

– Como você sabe? – perguntou Peter

– Eu sinto a energia. As pessoas sabiam que iam morrer! Assim que aconteceu, assim que caíram na água elas sabiam. Eu sinto o medo delas, sinto a certeza. Logo em seguida uma sensação de liberdade, como se a alma fosse tirada do corpo. Todos morreram bem rápido. Foi melhor assim, não sofreram com a dor da perda dos entes queridos, nem com o frio insuportável da água. – Linda podia sentir o que os mortos sentiram no momento do acidente. ­– Ela teve a visão dela mesma na água, congelando, partindo e a criatura segurando sua mão e resgatando sua alma. Depois saiu do transe.

– Vamos voltar!

No outro dia à tarde os três sentaram para almoçar na lanchonete da praça. Começaram a discutir sobre o que haviam conseguido até o momento.

– Não temos nenhuma evidência gravada nos aparelhos. – Começou Maggie – Nossa única prova são os depoimentos de Linda. E creio que isso não vá contar.

– Eu achei que vocês queriam satisfazer a curiosidade de vocês, mas pelo jeito vocês me enganaram. O que ambos querem afinal?

– Maggie quer escrever um livro sobre o assunto, colher depoimentos, anexar provas de que a criatura realmente existe. – explicou Peter.

– Que seja! Acabou! Vou embora ainda hoje. – continuou Linda.

– O que houve Linda por que você está agindo dessa forma estranha? – perguntou Peter ao ver a moça bastante agitada.

– Vocês querem culpar uma criatura pelos erros cometidos pelos homens. Aceitem, a ponte ruiu porque estava mal conservada, ou foi mal construída.

– E os outros relatos? – perguntou Maggie. – Ainda não acabou Linda, precisamos ir ao Iglu trinta e um. Por favor! Só mais essa noite, prometo que partiremos amanhã cedo.

– Só mais essa noite e chega!

O Iglu trinta e um era bem mais escuro que o outro. Linda percebeu que estava no local onde o chefe shawnee havia sido enterrado. Os espíritos dos índios estavam inquietos, seus túmulos tinham sido profanados com a construção da fabrica.

Um circulo branco formou-se em torno de todos, a criatura estava protegendo eles da raiva dos shawnees, Linda começou a perguntar:

– Vocês invocaram a criatura?

Não obteve respostas. A batalha de 1774 apareceu na mente de Linda. Ela relatava o massacre da tribo, a maneira como Cornstalk havia sido traído e a maldição que ele havia jogado na cidade antes de morrer.

– O que é a criatura? – perguntou então.

Dois olhos vermelhos apareceram na escuridão. Linda sentiu uma energia muito forte vinda deles, seu corpo pareceu estar entorpecido pela energia.

– O que você é?

A palavra inteligência veio na mente de Linda.

–­ O que ele é Linda? – perguntou Peter

– Uma energia inteligente. Não é um espírito desencarnado, nem um fantasma ou demônio. É uma energia inteligente que pensa como nós ou até mais que nós.

– Foi ele que causou os acidentes? – precipitou-se Maggie

– Você quer mesmo saber isso Maggie? – perguntou Linda temendo a resposta da criatura.

– Eu preciso saber?

– Não. Não foram eles.

– Eles? Então há várias criaturas? – espantou-se Peter.

– Eu os chamaria por outro nome. Eles são coletores, guias de almas. Alguns são mensageiros. Eles pressentem o que está por acontecer.

– E não podem evitar?

– Não podem interferir no destino. Eles tentam a maneira deles avisarem a nossa espécie. São como um sexto sentindo para alguns de nós. Infelizmente não somos avançados o bastante para entender a mensagem a tempo.

Maggie tentava pegar algo com o gravador de voz.

– Nossos aparelhos não funcionam Maggie, no máximo você vai ouvir os índios enfurecidos por causa de nossos antepassados. – Linda sentiu que a energia estava partindo – Ele está indo. Precisamos ir também.

Voltaram para Los Angeles na manhã do outro dia. Maggie frustrada por não ter provas para escrever o livro. Peter sentia-se aliviado, pois sabia que as vitimas não tinham sofrido e estavam em paz.

Linda estava quieta, parecia cansada e dormiu a viagem inteira. Deixaram-na em casa. Ela pegou suas correspondências, ouviu as mensagens na sua secretaria eletrônica. Conseguiu um emprego como professora primaria na escola perto de sua casa.

Tomou um banho, jantou, preparou-se para dormir. Assim que deitou na cama sentiu a presença acolhedora da avó. Sentou-se e viu a doce senhora próxima a sua cama.

– Vovó?

– Estou orgulhosa de você!

– Estou com medo vovó!

– Não precisa querida. Eles são rápidos! Você já passou por isso uma vez.

– Sim, agora me lembro. Por que eu não reencarnei como alguém da família dele?

– Você reencarnou para partir novamente, mas ao lado de Peter. Foi um pedido seu. Point Pleasant será uma das poucas cidades poupadas. Se tivesse nascido no ciclo familiar estaria morando lá.

– O que são eles vovó? Na realidade?

– Eu prefiro acreditar que são anjos de Deus. Seres mandados para levar as almas das pessoas mortas em catástrofes. Há milhares desses seres no mundo. Eles despertam no momento certo. Agora durma querida, você e seus amigos terão muitos anos pela frente antes da grande onda.

Uma criatura de dois metros de altura, com asas de três metros de comprimento, pelos marrons pelo corpo, olhos vermelhos e cabeça arredondada, foi vista por passageiros de um avião, ele voava perto das Ilhas Canárias. Esperando o gigante adormecido acordar com toda sua fúria.

.

.

Obrigada, por chegarem até aqui.

 

Débora Gimenes/Debby Lenon estudou letras e é escritora, é idealisadora e administradora dos blog O Lado Oculto da Mente e do jornal eletrônico O Lado Oculto da Mente

 

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4 Respostas para Os Mensageiros

  1. Lino Tavares 11/10/2012 em 19:59

    Nesse misto de fixão e realidade, existe muita filosofia que entra no mérito da sociologia e do psicossocial. Tudo é muito relativo. É a velha história do mais forte comendo o mais fraco. Americanos e ingleses têm as costas largas, quando se trata de lhes atribuir prepotência dominadora. É claro que os povos primitivos sofreram opressão e foram, de certo modo, aviltados em relação aos bens herdados da natureza. Não se pode esquecer que civilizar é impor uma nova cultura, tida como mais evoluída, a quem está fora do contexto evolutivo. Logo, temos que admtir que a preservação dos sílvicolas ou gentios, tal como foram encontrados pelo homem branco, seria negligenciar a eles a possibilidade de evoluir. Se perguntaramos a um índio, que se formou médico, advogado, engenheiro, etc., bem sucedido, se ele gostaria de rasgar o diploma, doar seus bens aos pobres e voltar a viver na tribo, como dantes, certamente ele responderia que não. Portanto, tudo é muito bonito na teoria, mas na pratica, o furo é mais embaixo. O texto é muito longo e, talvez em razão disso, eu tenha me desviado um pouco do tema central, mas, sem muito tempo para ler com calma, opinei à luz do que entendi.

    Responder
  2. Ivani Medina 12/10/2012 em 10:35

    A autora permeia diversos temas com a mesma facilidade e leveza no estilo. Uma palavra só a defini como escritora: poderosa.
    Sucesso sempre.

    Responder
  3. Debora Gimenes 09/01/2013 em 21:42

    Obrigada pelo carinho de vocês.
    Lino, o texto realmente é grande para a internet, na realidade eu apenas quis mostrar um pouco da investigação num universo fantástico. Para isso eu usei essa lenda que sempre me atraiu. Não tinha pensado em nada tão complexo.
    Ivani, muito obrigada pelas suas palavras de incentivo.
    Fiquem na paz!

    Responder
  4. Lino Tavares 10/01/2013 em 01:40

    Independente dos pontos de vista divergentes, seu texto é impecável, prezada Débora, e merece ser lido na íntegra, para que se possa dar campo a uma boa reflexão em torno do tema abordado. Não sou muito letrado nesses assuntos que envolvem sociologia e evolução dos povos. Da mesma forma como o Severino, do Zorra Total, diz “o meu negócio é portaria, doutor !”, eu digo ” o meu negócio é futebol, polítíca e humor. Parabéns, um abraço e votos de Feliz 2013.

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